1 de maio de 2016

Resenha: soneto 12




Título: Sonetos
Autor: Luís Vaz de Camões
Editora: Martin Claret
Ano: 2013
Páginas: 208
Sinopse: Camões é o maior poeta da língua portuguesa, porém há vários mistérios em torno de sua vida agitada e trágica. Entre suas obras há poemas líricos, em que são empregados os sonetos, éclogas, odes, oitavas e elegias. Já nas epopéias têm-se um dos poemas mais conhecidos na literatura, Os lusíadas. Em seus sonetos o eu lírico eleva o sentimento amoroso, demonstrando o amor e os sofrimentos causados por ele.





Obra:
Vossos olhos, Senhora, que competem,                                                             A
com o Sol em fermosura e claridade,                                                                  B
enchem os meus de tal suavidade                                                                      B
que em lágrimas, de vê-los, se derretem.                                                           A

Meus sentidos vencidos se submetem                                                                A
assim cegos a tanta divindade;                                                                           B
e da triste prisão, da escuridade,                                                                        B
cheios de medo, por fugir remetem.                                                                    A

Mas se nisto me vedes por acerto                                                                      C
o áspero desprezo com que olhais                                                                     D
torna a espertar a alma enfraquecida.                                                                E

Ó gentil cura e estranho desconcerto!                                                                F
Que fará o favor que vós não dais,                                                                     D
Quando o vosso desprezo torna a vida?                                                            E


Resenha

Oi, gente! Tudo bem?
Recentemente apresentei um seminário na universidade que visava analisar poemas camonianos. Deveria então, selecionar um poema de Luís Vaz de Camões e posteriormente destacar alguns aspectos pertinentes a obra. Escolhi o soneto 12 que se inicia com o verso “Vossos olhos, Senhora, que competem”.
Primeiramente, quero destacar a sua estrutura, ressaltando que se trata de um soneto, pois têm em sua composição dois quartetos (estrofes de quatro versos) e dois tercetos (estrofes de três versos). Em relação às rimas, aqueles possuem rimas opostas, ou seja, que se opõem (ABBA) e estes rimas mistas, pois não seguem a um esquema fixo (CDE e FDE), possíveis de se perceber em destaque na obra acima.
Outro ponto de suma importância são as temáticas contidas ao longo do poema, que nos remete ao Trovadorismo – movimento literário que surgiu na Idade Média - mais especificamente às cantigas de amor que tem o eu lírico masculino, em que no soneto 12 confessa seu sentimento amoroso a uma mulher amada que ele a idealiza, descrevendo-a com muita perfeição, porém também evidencia o seu sofrimento perante essa mulher que o despreza.

“Vossos olhos, Senhora, que competem,
com o Sol em fermosura e claridade
enchem os meus de tal suavidade
que em lágrimas, de vê-los, se derretem.”

Logo, fica evidente no termo em destaque (Senhora) o amor cortês, característica trovadoresca que indicava a forma que o homem tratava sua amada, mostrando educação e respeito. Já as outras expressões sublinhadas nos remetem a conotação que é bastante presente na obra.
No primeiro caso (fermosura e claridade), o eu lírico utiliza-se da metáfora para realizar uma comparação dos olhos da mulher com o sol, em que para ele, esse atributo físico dela é tão belo e claro quanto o astro solar. Posteriormente, faz-se o uso da hipérbole, que significa um exagero de idéias (derretem) para evidenciar toda a sua emoção ao ver os olhos de sua adorada.
Nos trechos abaixo se destaca a antítese, figura de linguagem que é utilizada para expor oposições de ideias. A aversão (espertar X enfraquecida) se deve ao fato de que enquanto um é algo ativo, o outro aparece um tanto abatido.

“o áspero desprezo com que olhais
torna a espertar a alma enfraquecida.”

Outro contraste é entre cura (recuperação) e desconcerto (transtorno), termos destacados no verso abaixo. Nele há também a apóstrofe, em que o eu lírico faz a invocação de um restabelecimento dos seus sentimentos, pois no soneto ele relata tanto o amor por essa mulher, quanto à dor que sente por amá-la e não ser correspondido, buscando a cura para essa aflição.

Ó gentil cura e estranho desconcerto!”

O desejo de fuga nos faz pensar também em outro movimento literário, o Renascimento, pois no momento que o eu lírico manifesta a sua vontade de conduzir seu próprio destino aborda o antropocentrismo, forma de pensamento que coloca o homem como centro do mundo e não Deus. Entretanto isso não significa que o indivíduo não acredita em Deus e sim que o sujeito passa a ter sua própria visão de mundo.
Através da leitura percebi uma semelhança do poema com uma telenovela transmitida no Brasil em 2012 com texto de Iris Abravanel, protagonizada por Patrícia Barros e Flávio Tolezani, A trama tinha ainda Cynthia Falabella e Paulo Zulu, personagens que irei realizar a intertextualidade. 
                                                           (Imagem: via)

Comparando o soneto com a novela temos o sofrimento de Rodrigo por amar sua até então namorada Aline, enquanto ela o desprezou ao saber que seu primo rico, Vítor iria retornar ao Brasil. Em oposição, a forma que o personagem encontrou para fugir dessa angústia foi o suicídio, ao contrário do eu lírico que buscava deixar aquele sentimento adormecido.
Confesso que na primeira leitura foi bem complicado para entender a obra devido a sua linguagem e conotações, mas com a ajuda do querido dicionário e das leituras seguintes ficou bem mais fácil a compreensão.

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