Light Grey Pointer Uma vida Literária : Filme: Precisamos falar sobre o Kevin

2 de setembro de 2016

Filme: Precisamos falar sobre o Kevin

Precisamos falar sobre o Kevin, retrata de forma impactante, o relacionamento entre mãe e filho, dividindo opiniões entre os telespectadores. 
Poucos são os filmes que me prendem do começo ao fim, e este foi um deles. 
Logo nos minutos iniciais, uma cena marcante com grande predominância da cor vermelha, nos remete automaticamente á ideia de sangue e a de que algo realmente fatal acontecerá nas próximas cenas.
Conhecemos Eva (Tilda Swinton), uma mulher de aparência exausta e totalmente deprimida, que por algum motivo é rejeitada por todos os moradores próximos, tendo a sua casa e carro constantemente atacados com tinta vermelha (novamente submetidos á ideia de sangue) e até sofrendo agressão física e verbal quando saía para lugares públicos.
Com o passar das cenas, somos apresentados á uma Eva jovem, bem sucedida e feliz ao lado do marido, Franklin (John C. Reilly), completamente diferente da mulher abatida que conhecemos no início, e logo descobrimos que o motivo de todos esses sentimentos ruins se acumularam em Eva até a consumirem psicologicamente e fisicamente, é o seu primeiro filho, Kevin (Jasper Newell, na infância, e Ezra Miller, na adolescência).

O filme se intercala entre cenas do passado (flashbacks) e presente,  fazendo com que as revelações da história sejam nos apresentadas aos poucos para que tudo se encaixe no final, é um daqueles filmes onde após o término, ficamos nos perguntando o por quê de tudo.
Eva, desde a gravidez, não desejava ter o filho. É perceptível que em algumas cenas ela até se esforça para se animar com o fato de estar esperando um bebê, mas não obtém êxito, e os nove meses se passam com ela se alimentando de frustrações e culpa.


Isso piora quando Kevin nasce. Eva não sabe como lidar com o filho, não tem paciência e não consegue o fazer parar de chorar, prova disso é quando ela, durante um passeio com ele, para em frente á uma obra de construção, só para que o barulho das máquinas e equipamentos se sobressaíam ao choro de seu bebê. O resultado disso tudo é uma relação totalmente desafetuosa entre mãe e filho.
Por outro lado, temos Franklin, o pai de Kevin, que apesar de não ser muito presente na vida do filho, apresenta um comportamento dócil, amoroso e até habilidoso para com o bebê.
Com o passar dos anos, Kevin se torna uma criança com um grande grau de cinismo. Ele faz de tudo para irritar e testar a paciência de sua mãe durante o dia, e quando o pai chega em casa, ele muda completamente, fazendo com que por diversas vezes, Franklin ache que é Eva quem exagera quando lhe fala sobre Kevin. 
Isso nos remete ao título do livro/filme, que é como um pedido de socorro para que prestem atenção, conversem, ajudem de qualquer maneira, que falem sobre o Kevin (não somente o personagem do filme, mas pessoas que apresentam comportamentos semelhantes), que busquem uma solução, qualquer que seja. Talvez, no caso, se os pais tivessem "falado" realmente sobre o Kevin, tudo teria sido diferente. Se o pai de Kevin escutasse e levasse a sério tudo o que Eva lhe contava, se ele não pensasse que era exagero e a ouvisse, as coisas poderiam ser evitadas.


"Só porque você se acostuma com algo, não significa que você goste. 
Você se acostumou comigo." - Kevin

O filme foca na relação catastrófica entre Eva e Kevin. Eva, busca entender o motivo pelo qual o filho a trata daquela forma e tenta diversas vezes se aproximar dele, mesmo sem nenhum sucesso, pois é notável pelo olhar do garoto para ela, que ele a repudia de certa maneira. Kevin, cresce sendo uma criança manipuladora e cínica, que logo cedo descobriu como e quando agir para a sua satisfação pessoal e agora apresenta uma personalidade maquiavélica. Ele sabia o que a mãe sentia em relação á ele, sabia o que isso causava á ela e através disso, ele agia para atingi-la de todas as formas possíveis.
Eva também engravida novamente e dá a luz á uma menina. O relacionamento dela com a filha é cuidadoso, amoroso e totalmente o oposto daquilo que vimos com Kevin. A menina acaba se tornando alvo constante de Kevin, e sofre algumas coisas mais graves por ser a mais nova e mais vulnerável da casa, e por ele saber que aquilo atingiria Eva. 
No decorrer do filme, é  possível notar em quase todas as cenas, que Eva se sentia insegura e solitária, como se Kevin fosse a razão de sua vida ter dado uma grande reviravolta e se perguntava constantemente qual o motivo de todos os sentimentos ruins do filho em relação á ela e vice-versa. É notável também que ela sempre soube que existia alguma coisa muito errada com o seu filho, não somente um descontentamento em relação á ela, mas algo muito maior. 
E se tem a prova disso quando Kevin, com 15 anos, comete algo irracional que afeta não somente a família dele, como diversas outras e faz com que Eva tenha aquilo a massacrando pelo resto de sua vida.


Para quem assiste, ficam perguntas tais quais: "Será que o individuo já nasce com essa personalidade formada?", "Será que desde quando era um feto ele sentia o descontentamento da mãe e quando nasceu não conseguiu criar vínculos afetuosos?" ou "Será que o individuo forma uma personalidade de acordo com o que é passado para ele?".
Será possível mudar uma personalidade tão 'perigosa', como a de Kevin ? Ou será que Eva é quem errou em sua conduta como mãe ? E porque então a relação dela com a filha era tão diferente da que vimos com Kevin ?
Admito que fiquei horas me perguntando e até mesmo lendo assuntos relacionados á isso. Nossa sociedade é dividida entre o bem e o mal, entre o certo e o errado, e algumas vezes, existem pessoas que não conseguem distinguir os dois lados, ou se o fazem, parecem se divertir fazendo o oposto do que é sensato, sem nenhum motivo aparente para tal, como era o caso de Kevin.
No final do filme, fica a impressão de que Kevin finalmente entendeu o que cometeu mas não é possível dizer ao certo se ele se arrependeu ou não. 

Informações 

Título: Precisamos falar sobre o Kevin
Título original: We need to talk about Kevin
Baseado no best-seller de Lionel Shriver
Lançamento: 2011
Duração: 1h52 minutos
Diretor: Lynne Ramsay
Distribuidora: Paris Filmes

Recomendo que antes de assistir, leia o livro, é mais complexo e traz maior entendimento sobre os sentimentos das personagens. No geral, é um filme que apresenta uma dramatização impecável, uma adaptação da cineasta Lynne Ramsay  com interpretação excepcional dos atores em seus papéis  e uma história intensa sobre a mente humana que prende e nos faz questionar e questionar.
Vale a pena assistir e tirar suas próprias conclusões ou ficar com mil hipóteses na cabeça (igual a mim, rs).

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