Light Grey Pointer Uma vida Literária : Crônica: O amor mais que romântico - Martha Medeiros

28 de junho de 2016

Crônica: O amor mais que romântico - Martha Medeiros

Crônica do livro "A Graça da Coisa"

O amor mais que romântico 
(12 de junho de 2013)

Quando era criança, assistia a filmes e novelas românticas e pensava: será que um dia escutarei "eu te amo" de alguém? É bem verdade que ouvia todo dia da minha mãe, mas não era o mesmo jeito que o Francisco Cuoco dizia para a Regina Duarte. Eu sonhava com o "te amo" apaixonado, dito por um homem lindo, e com a voz um pouco trêmula, para deixa sua emoção bem evidente. Será que era invenção do cinema e da tevê, ou essas coisas poderiam acontecer mesmo?


Passou o tempo. Cresci, ouvi e retribuí. Clichê? Que seja, mas não há quem não se emocione ao escutar e ao dizer, ao menos nas primeiras vezes, em pleno encantamento da relação, quando a declaração ainda é fresca, pungente, verdadeira, a confirmação de algo estupendo que se está experimentando, um sentimento por fim alcançado e que se almeja eterno. Depois ele entra no circuito automático, vira aquele "te amo" dito nos finais dos telefonemas, como se fosse um "câmbio, desligo".

O tempo seguiu passando, e me encontro aqui, agora, descobrindo que há outro tipo de "te amo" a ser escutado e falado, diferente dos que acontecem entre pais e filhos e entre amantes. É quando o "te amo" não é dito a fim de firmar um compromisso, para manter alguém a par das nossas intenções ou experimentar uma cena de novela. Ele vem desvinculado de qualquer mensagem nas entrelinhas, não possui nenhum caráter de amarração e tampouco expectativa de ouvir de volta um "eu também". É singular. Estou falando do amor declarado não só quando amamos com romantismo, mas também de outra forma.

Explico: tenho dito "te amo" para amigas e amigos, e escutado deles também. Uma declaração bissexual e polígama, que resgata esse sentimento das garras da adequação. Volta a ser o amor primitivo, verdadeiro, sem nenhuma simbologia, puro afeto real. Amor por pessoas que não conheci ontem num bar, e sim por quem já tenho uma história de vida compartilhada. Amor manifestado espontaneamente àqueles  que não me exigem explicações, que apoiam as minhas maluquices, que fazem piada dos meus defeitos, que já tiveram acesso ao meu raio X emocional e sabem exatamente o que levo dentro - e eu, da mesma forma, tudo igual em relação a eles. Mais do que nos amamos - nos sabemos.

É um "te amo" que cabe ser dito inclusive aos ex-amores, ao menos aos que marcaram profundamente, aos que nos auxiliaram na composição do que nos tornamos, e que mesmo tendo nos feito sofrer, foram fundamentais na caminhada rumo ao que somos hoje. E indo perigosamente mais longe: esse ex-amor pode ainda ser seu marido ou sua mulher, mesmo já não fazendo seu coração saltar da boca. Pelo trajeto percorrido, e por ter alcançado o posto  de um amigo mais que especial, merece uma declaração igualmente comovida.

É quando o "eu te amo" deixa de ser sedução para virar celebração.



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